“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?” (cf. Jó 7,1). São as palavras contundentes de Jó. De fato, a vida humana é marcada por lutas diárias. Travamos batalhas cotidianas entre alegria e tristeza, prazer e dor, desilusões e esperanças.E dentre todas as lutas, há uma sempre mais ferrenha: dar um sentido ao nosso sofrimento, seja ele qual for. Inevitavelmente, enfrentamos situações que nos machucam. E, nesse enfrentamento, há o perigo de perdermos a esperança, força motriz da verdadeira alegria de viver.
No tempo da redação do livro de Jó, dominava um pensamento religioso fundamentado na recompensa para este mundo. Em outras palavras, não se acreditava ainda na vida eterna. Deus premiava aquele que cresse com uma vida próspera e sem males por estas plagas mesmo. Mas a experiência concreta mostrava outra realidade, com muitos crentes sofrendo como outros mortais. E a história de Jó torna-se emblemática.
A vida real mostra que crentes ou não-crentes experimentam as mesmas agruras, os mesmos desafios. Quem crer não vive à margem das dificuldades. Crer não significa está imune à realidade. Ninguém está isento da experiência da dor.
No entanto, quem crer é chamado a dar um sentido ao seu sofrimento. E esse sentido é encontrado quando abrimos os ouvidos e o coração à palavra de Deus, que nos auxilia a situar a nossa história pessoal dentro de um projeto maior, o plano salvífico de Deus. Aí sim compreendemos que tudo tem um propósito.
Jó fez esse caminho. No final do seu livro, ele diz: “eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te vêem (cf. 42,5). Ou seja: Para Jó, Deus deixou de ser uma ideia fria, uma coisa que simplesmente lhe oferecia benesses. Na experiência da dor, Jó descobre um Deus vivo cuja palavra pode ofertar um sentido capaz de restaurar uma vida aos farrapos.
No filho de Deus feito homem, essa palavra restauradora vem nos orientar de perto. No evangelho de Marcos, no episódio da cura da sogra de Pedro, o evangelista diz: ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se (cf. Mc 1,31). Deus não se compadeceu de longe. O Filho de Deus veio fazer a mesma experiência da luta diária da qual Jó falava. Ele se tornou próximo, segurou-nos pela mão e está sempre pronto a nos levantar, ajudando-nos a ter um novo olhar diante das dores inevitáveis da vida.
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