sábado, 17 de março de 2012

Tanto Deus amou o mundo que enviou o seu Filho – IV Domingo da Quaresma

“Alegra-te Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Cf. is 66, 10-11). Com essas palavras do profeta Isaías, a liturgia de hoje exorta os fiéis a experimentarem esse IV Domingo da Quaresma, denominado Domingo Laetare ou Domingo da Alegria. Alegremo-nos porque, nós que choramos os nossos pecados, a nossa ingratidão para com o amor gratuito de Deus, encontraremos consolação quando o Filho do Homem for levantado da terra no madeiro da cruz (cf. Jo 3, 14s).
De fato, Deus amou tanto o mundo que enviou o seu Filho não para condená-lo, mas para salvá-lo (cf. Jo 3, 17). Foi para isso que Deus nos criou: para a comunhão com Ele, por meio de Jesus Cristo. Mesmo com o pecado, com a negação reiterada do homem ao amor de Deus, Ele continuou nos amando, nos ofertando seu aconchego de Pai. “E quando nós estávamos mortos por causa das nossas faltas, Ele nos deu a vida com Cristo” (Ef 2, 5a).
Essa vida é a vida imperecível, aquela na qual Jesus será revestido pelo Espírito na Ressurreição. É essa vida que Jesus compartilhou conosco, e tudo isso por graça. Por isso o Apóstolo irá dizer: “É por graça que vós sois salvos” (Ef 2,5b).
Porém, s. João nos vai recordar que a oferta de Deus em Jesus pode ser rejeitada: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações são más” (Jo 3,19). O pecado pode nos tornar insensíveis a ação de Deus. Ora, não foi essa a atitude de Israel apresentada em 2Cr 36, 15s: “O Senhor Deus de seus pais dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de seus mensageiros (...) Mas eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras”.
No entanto, ninguém pode fechar-se ao amor de Deus que é luz, sem sofrer as consequências. Israel perdeu sua terra, foi levado cativo. Foi preciso Israel chorar suas culpas às margens dos rios da Babilônia (cf. Sl 136, 1) para redescobrir o valor do amor de Deus. E o reencontrou porque Deus vem sempre ao nosso encontro. E Ele veio definitivamente ao nosso encontro no seu Filho Jesus. Nesse caminho quaresmal redescubramos o amor de Deus, reavivemos essa experiência e ajamos conforme a verdade, aproximando-nos da luz, e, assim, manifestemos que as nossas ações são realizadas em Deus (cf. Jo 3, 21).

segunda-feira, 12 de março de 2012

Afinal, o que elas e eles querem?

Nesses últimos dias, um grupo de lésbicas e de outras minorias, conseguiu, junto à justiça gaúcha, o direito de ver retirado dos tribunais os crucifixos. Vitória do relativismo religioso, derrota do cristianismo católico, tão caro ao povo brasileiro.
Diante de tal fato é inevitável perguntar: o que querem essas lésbicas e as demais minorias? Sejamos sinceros, esses grupos querem ardentemente impor sua visão de mundo aos outros. Uma compreensão de mundo sem referências religiosas, que desrespeita a história da fé da maioria de um povo. Um modo de ver a realidade sem valores universais e sólidos.
Que esses grupos desejem ver os seus direitos de cidadãos brasileiros assegurados é compreensível. Mas querer alcançá-lo usurpando o direito dos outros, agindo da mesma forma agressiva e rancorosa da qual muitas vezes foram vítimas, não é o caminho.
Mas, outro questionamento, inevitavelmente, aqui se impõe: por que um grupo capitaneado por lésbicas lutam exatamente pela retirada de crucifixos? Embora recorram à laicidade do estado e ao tratamento paritário das expressões religiosas, tais grupos estão em briga mesmo é com o cristianismo, de um modo particular com o catolicismo.
Mas, afinal, o que tem a ver o crucifixo presente nas repartições públicas com as lutas de lésbicas e homossexuais? Influência sobre o judiciário? Caso o argumento seja este, é subestimar a imparcialidade do judiciário brasileiro, quiçá uma ofensa.
Talvez o crucifixo incomode não por ser um simples símbolo do catolicismo. Ele perturba porque recorda a todos que a vida é séria demais para se levar na leviandade. O Cristo foi a expressão mais concreta da obediência que levou à plenitude valores que tornam a vida coerente, justa e santa aos olhos de Deus.
Ou cremos e aderimos a tais valores, ou o nosso coração e o coração da nossa cultura tornam-se um caos, sem referências seguras. Os cristãos não chamam de bem o que Deus chamou de mal, não chamam de vida o que Deus considerou morte. Não temos esse direito. Portanto, seja qual for a minoria, deve respeitar o modo de crer e de viver dos cristãos católicos e o seu direito de expressão na sociedade na qual vivem.
É preciso dizer um grande não à retirada de crucifixos e demais símbolos religiosos. Não podemos nos tornar reféns da visão relativista de certos grupos.

sábado, 3 de março de 2012

II Domingo da Quaresma - Ano B: "E transfigurou-se diante deles" (Mc 9,2)

Na primeira leitura desse domingo, extraída do livro do Gênesis, Deus pede a Abraão seu filho Isaac em sacrifício. O filho desejado por tantos anos, recebido como um dom, agora é solicitado em holocausto: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o aí em holocausto sobre o monte que eu te indicar” (Gn 22,2). Podemos imaginar a angústia de Abraão ao escutar esse pedido de Deus. Como pode Deus pedir tal sacrifício e com que finalidade?
Em nosso caminho quaresmal também somos chamados ao sacrifício da fé, à exemplo de nosso pai Abraão. Quais os “Isaacs” precisamos sacrificar? Abraão não hesitou, creu, e Deus lhe poupou o Filho. Deus não queria o sacrifício humano, mas o sacrifício de um coração capaz de se dilatar até aos extremos para que Deus possa selá-lo com o seu amor. Por sua fidelidade, Abraão é abençoado e terá uma descendência numerosa como as estrelas do céu e como as areias do mar (cf. Gn 22,18). Quem doa tudo a Deus, quem é capaz de se mortificar, receberá de Deus a sua própria vida. E esse Deus, como nos diz s. Paulo, ao doar o seu Filho, entregando-o por todos nós, deu-nos junto com Jesus Cristo (cf. Rm 8,31b-32).
Os exercícios quaresmais da penitência, da esmola e do jejum ajudam-nos a fazer o caminho do sacrifício da fé. O esvaziamento de nós mesmos, de nossas limitações e fraquezas, encher-nos-ão dos dons de Deus, na solene festa da Páscoa, transfigurando-nos em homens novos.
O evangelho desse domingo aponta-nos essa realidade. Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e leva-os a uma alta montanha e ali se transfigura (cf. Mc 9,2). Jesus antecipa a olhos desses três discípulos a glória que está reservada a todos os cristãos. A finalidade dessa antecipação é justamente afastar o medo da cruz, indicando que o sacrifício é o caminho para a Vida Nova em Cristo. O destino de todo o cristão é a glorificação, a vida plena no Espírito Santo.
A magnitude dessa vida que nos aguarda escapa à nossa realidade humana. Essa grandeza é expressa por isso S. Marcos, quando diz que as roupas de Jesus ficaram brilhantes e brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar (cf. Mc 9,3). Hoje podemos dizer com as palavras de s. Paulo, “o que os olhos não viram, os ouvidos não viram e o coração do homem não percebeu, tudo o que Deus preparou para os que o amam”, Ele nos revelou na transfiguração de Jesus.
Guardemos a fé nessa quaresma, diante do sofrimento e da renúncia (cf. Sl 115), para que possamos gozar das alegrias pascais desse ano, e, um dia, da glória eterna, onde seremos plenamente revestidos de Cristo.

As "sugestões litúrgicas" que destroem a liturgia" I

Qual terá sido a "sugestão litúrgica desta celebração? Melhor nem pensar...


No Brasil, alguns subsídios litúrgicos, infelizmente, oferecem “sugestões criativas” para a celebração da Santa Missa. Tais ideias não fazem parte da celebração eucarística, segundo a Sacrossanctum Concilium (SC), constituição conciliar dobre a liturgia do Vaticano II, a Inrodução Geral ao Missal Romano (IGMR) e as Normas para o Ano Litúrgico e Calendário (NALC). Portanto, não se deve segui-las, a não ser que se queira desvirtuar ou destruir a Sagrada Liturgia. Liturgia não se inventa, celebra-se aquilo que recebemos do patrimônio da Igreja, com sacralidade e respeito. A única sugestão que deveria valer para todos é compreender e adentrar no espírito da celebração da Eucaristia.
Abaixo apresento “as sugestões" que os subsídios sugerem para este II Domingo da quaresma, dia 04 de março, seguido do comentário com a palavra oficial da Igreja e algumas palavras nossas.
a) "Continuar destacando a cruz".
Comentário: “Haja também sobre o altar ou em torno dele uma cruz, ornada com a imagem do Cristo crucificado. Os castiçais e a cruz, ornada com a imagem do Cristo crucificado, podem ser trazidos na procissão de entrada..” (IGMR, 117). São as palavras oficiais da Igreja quando se trata da cruz na celebração da Eucaristia. Há ainda outras, no mesmo sentido. Fora isso, é invencione de liturgistas. Quando se sugere “continuar dando destaque” a algo que pela estrutura orgânica da celebração já tem o seu espaço, só podemos imaginar uma cruz enfeitada de fitas coloridas... E isso é preferível nem comentar...
b) "Após a saudação inicial, fazer a recordação da vida, lembrando as realidades que precisam ser transfiguradas".
Comentário: “Em seguida, o sacerdote convida para o ato penitencial, que, após, breve pausa de silêncio, é realizado por toda a assembleia através de uma fórmula de confissão...” (IGMR, 51). Palavra da Igreja. Ato Penitencial é o reconhecimento dos pecados pessoais e clamor à misericórdia divina. Quando se fala em “recordação da vida, lembrando as realidades que precisam ser transfiguradas”, sentimos o cheiro daquela velha cantilena que culpabiliza os cristãos pelos males do mundo. Não caiam nessa! A primeira realidade a ser transfigurada somos nós mesmos, em Cristo Jesus na potência do seu Espírito Santo!
c) "Neste dia (...) é importante valorizar o silêncio..”
Comentário: “Oportunamente, como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado. A sua natureza depende do momento em que ocorre em cada celebração. Assim, no ato penitencial e após o convite à oração, cada fiel se recolhe; após uma leitura ou a homilia, meditam brevemente o que ouviram; após a comunhão, enfim, louvam e rezam a Deus no íntimo do coração...” (IGMR, 45). É o que se encontra no Missal Romano. O silêncio faz parte da estrutura orgânica da Missa. Quando se sugere a valorização do silêncio, é porque ele não está sendo observado, talvez porque a mesma pessoa ou grupo que agora sugeriu valorizar o silêncio, sugeriu anteriormente perturbar a celebração com cartazes, destaques para a cruz e excesso de comentários.

sexta-feira, 2 de março de 2012

É preciso revisitar o Ocidente

Com certa frequência, aparecem, nos diversos veículos de comunicação, matérias sobre a cultura dos países orientais. Nestas, observa-se certo fascínio dos repórteres e apresentadores, que, não poucas vezes, fazem um contraponto com a cultura Ocidental. A primeira seria mais equilibrada, mais atenta ao interior do ser humano. A segunda seria exageradamente racional.
E lastimável a ignorância recrudescente da civilização ocidental sobre si mesma. Dos intelectuais aos mais incautos cidadãos, há um desconhecimento das bases da própria cultura. E isso tem conseqüências graves: um povo que não mais sabe de onde veio, quais as suas referências, encanta-se com qualquer bobagem.
Se o mundo caminha nesse progresso - descontada as mazelas de sempre -, deve-se ao espírito empreendedor e visionário do homem ocidental, impregnado de ideias e valores basilares ao desenvolvimento humano.
E como esse espírito é possível? Os valores constituintes do ethos da cultura do sol poente encontram os seus alicerces na cultura e religião judaicas. Em meio aos mitos politeístas dos povos vizinhos, Israel vai alcançar uma visão do homem fundamentada na sua relação livre com Deus. A dignidade do ser humano reside na sua capacidade inata de livremente assumir as suas escolhas. Por isso o tempo para os semitas não é cíclico, condenando os homens a viverem os mesmo erros, mas uma realidade que caminha rumo a um ponto final, onde o ser humano constrói, na liberdade, sua existência de uma maneira sempre nova.
Assumidos pelo cristianismo e levados ao seu pleno significado, esses valores irão se encontrar com o mundo helênico, berço da filosofia. Há, então, o encontro entre valores cristãos e pensamento grego. Esse enlace dura toda a idade Média, enquanto vigorar a cristandade.
Com a revolução francesa - cujo lema faz ecoar valores judaico-cristãos, liberdade, igualdade, fraternidade- e o iluminismo, afirma-se a autonomia da razão. Embora com prejuízo do preconceito em relação à história anterior, as ideias iluministas nada mais são do que a secularização dos valores enraizados no Ocidente.
Se hoje o Ocidente é a cultura dos direitos inalienáveis da pessoa humana, da democracia, da liberdade, deve a esse caminho. Revisitá-lo é fundamental. Caso contrário, ficaremos encantados com os mitos orientais, superados há milênios pelo povo judeu. É melhor enlevar-se com uma cultura cuja divindade respeita a razão humana, estabelecendo com ela um diálogo livre e impulsionando-a para um futuro sempre promissor.